quinta-feira, janeiro 29

Alimente-o

 


Aqueles que andam por aí

As pessoas não morrem: andam por aí. Quantas vezes as sinto à minha volta, não apenas a presença, o cheiro, a cumplicidade silenciosa, palavras que saem da minha boca e me não pertencem, penso

- Não fui eu quem disse isto

e realmente não fui eu quem disse isto, foram as pessoas mortas, exprimem opiniões diferentes das minhas, aproximam-se, afastam-se, vão-se embora, regressam, não me abandonam nunca. Em que parte da casa moram, qual o lugar onde dormem, devíamos deixar pratos a mais na mesa, talheres, copos, almoço que chegasse, os guardanapos nas argolas, um lugar no sofá, metade do jornal, dado que não se sumiram: andam por aí, invisíveis

(invisíveis?)

densas de humanidade, tão próximas. Umas alturas muitas, outras uma ou duas apenas por terem que fazer noutro lado, no caso de saírem não vale a pena preocuparmo-nos: têm a chave e a prova que têm a chave está em que entram, silenciosas, amigas, penduram os casacos no bengaleiro, sorriem. Onde se encontra o pai? Na cadeira do costume. Onde se encontra a avó? Lá fora, no quintal, a alinhar a roupa no frio, ou a fazer festas à cadela com a mão leve de sempre. Os cemitérios são lugares vazios, só árvores, sem defuntos, só a gente, que arranjamos as campas, sem entendermos que não existe ninguém lá em baixo. Para quê visitar ausências? Uns pardais nos choupos, nada. Que sítios tranquilos, os cemitérios, que inútil a palavra defunto. Segredam-nos

- Não faleci, sabes?

e não faleceram, é verdade, continuam, não na nossa lembrança, continuam de facto, pertinho. Quase sem ruído mas, tomando atenção, percebem-se, quase não ocupando espaço mas, reparando melhor, ali, iguais a nós, tão vivos. Andam por aí, pertencem-nos, pertencemos-lhes, não deixámos de estar juntos. Nunca deixámos de estar juntos: Quando é necessário poisam-nos a palma no ombro. Na época em que andei muito doente houve sempre palmas no meu ombro, a ajudarem. E agora, na mesa a escrever isto, espreitam o papel, sabem, melhor do que eu, as palavras que se seguem. O meu avô

- Não te aborrece escrever?

ele, a quem nunca vi ler um livro, instalava-se diante dos canteiros, em silêncio, a olhar as árvores, suponho que a olhar o Brasil da sua infância. Avôzinho. Tão diferente de mim: muito moreno, de cabelo encaracolado, lindo. Continua por aí, não deixe de continuar por aí. Um amigo meu, que disse a missa de corpo presente da mãe, contou-me que, ao voltar a casa semanas depois, a primeira pergunta que fez foi

- A mãe?

seguro de a achar num compartimento qualquer. E, de certeza

(isto já não me contou)

que deu com ela. Que dá com ela a cada passo. Nem é preciso interrogar seja quem for, a mãe encarrega-se de resolver o problema, haverá algum problema que uma mãe não resolva? Não é infantilidade da minha parte afirmar isto: é assim. Frase da minha, ontem

- A gente tem que se divertir ao divertir as crianças, porque se a gente não se divertir elas não se divertem

e eu de boca aberta. É que não há coisa mais séria que o divertimento. Os nossos brinquedos foram uma coisa importantíssima para o meu pai. Confiscava-nos alguns para seu gozo pessoal, secreto. A gravidade apaixonada com que ele jogava. Tenho os postais que o meu avô lhe mandava da guerra em França, derramados de ternura para um garotinho de dois anos. O paizinho gostava que o Janjão, etc. Andam os dois por aí agora, o Janjão e o paizinho. E, se calhar, o Janjão continua a receber postais. E de certeza que o Janjão continua a receber postais. É verdade não é, senhor, que continua a receber postais? Mesmo de bata, no hospital, mesmo professor, mesmo importante? Postais. Há quanto tempo não recebo postais. Uma carta de vez em quando, papelada da agência, das editoras, dos tradutores mas postais, postais-postais, népia. E aqueles que andam por aí, sei lá porquê, não me mandam nenhum. Ou mandam-se a si mesmas e acham que chega. E, em certo sentido, chega. Mas umas palavrinhas, num cartão, caíam bem, há alturas em que umas palavrinhas num cartão caem bem. Não sei porquê mas caem bem. Não faço nenhum livro agora, ando vazio, e o vazio começa a inquietar-me. E se isto acabou? Terei secado? Apareceu-me uma coisa mas não dava, de maneira que fiquei sem nada. As falsas partidas, os equívocos, pensar que se consegue e não se consegue. O que julgarão desta impotência aqueles que andam por aí? Não lhes falo nisso, claro, é o género de assuntos que guardo para mim, guardo quase tudo para mim. A casa frente ao mar que nunca tive, por exemplo, tenho prédios feios. Algumas árvores e prédios feios. Que silêncio. A minha filha, no computador, entretem-se com o que chama um jogo de estratégia, em lugar de se sentar no meu colo. Olho para o écran e não percebo raspas, deve ser uma estratégia complicadíssima. Afirma que está a construir coisas. Ao menos que haja alguém ao pé de mim a construir seja o que for, compenetrada, solene. Se olhar bem o seu ombro vejo a palma que poisou nela. Há palmas tão bonitas quanto os pássaros. Daqui a nada, sem que ela dê por isso, começa a cantar. Basta um bocadinho de atenção para a ouvir cantar. E, ao cantar, começo a escutar as ondas. Uma após outra. Para mim. Atrás destas janelas e destas árvores há-de haver uma praia. Reparem.
António Lobo Antunes, Revista Visão

Epigrama N° 3

Mutilados jardins e primaveras abolidas
abriram seus miraculosos ramos
no cristal em que pousa a minha mão.

(Prodigioso perfume!)

Recompuseram-se tempos, formas, cores, vidas ...
Ah! mundo vegetal, nós, humanos, choramos
só da incerteza da ressurreição.
Cecília Meireles

A moda é muda

Tizuca parado em frente à loja de roupas masculinas. Ou unissex. Quem sabe lá o que hoje é ou não é roupa do ou roupa da.

Indecisão. Dúvida. Perplexidade. Escolher o quê?

Colarinho italiano arredondado ou colarinho com pontas abotoadas. Os dois?
Colarinho com pespontos, colarinho chemisier? Tudo que há de opção na forma e cara de um colarinho!

Se Tizuca pende para a camisa esporte xadrez, vem o problema: o xadrez do bolso tanto pode ser na direção das linhas como enviesado. Enviesado é melhor, claro. Mas o outro, mesmo de xadrez, tem um toque de social, entende?
Tizuca não é lá muito social, mas a fórmula esporte-social o atrai. Em geral e sempre, ele é mais esporte. Acontece que amanhã pode querer dar uma de social, e então esta camisa aqui vira clássica, pelo artifício de um botão abotoado no colarinho. Versátil.


Vitrine é isso: mostra demais. Devia mostrar só uma camisa de cada vez, a gente conferia, tá bem, não tá: outra. Depois outra. Cinco camisas diferentes, dando tapa no olhar, como é que pode?

Tizuca ainda não chegou ao capítulo calça. Está assuntando a subseção lapela do bolso. Ah, e os botões de quatro furos? Sem quatro furos, infeliz é o botão, e logo esta camisa de palas inclinadas na frente e horizontais atrás, tão bac (Tizuca não fala bacana), perde noventa por cento de carga charmosa, com seus míseros botões de dois furos.

O botão também, na estética do minuto, precisa ter cores contrastantes com a cor ou cores da camisa. E mesmo, por que não? contrastantes entre si. Comprada a camisa, Tizuca vai dar à mãe o trabalho de arrancar três dos botões e substituí-los por outros bem diferentes uns dos outros. A velha trate de arranjá-los, botão é negócio de mãe.

Às calças. Tu não me procurarias tanto se já não me tivesses encontrado. Pascal, vestibular de francês. Por que fui escolher francês? Mas esta calça é aquela que eu sonhei na semana passada, a mesma, a própria. A cor, a linha, o tique-taque. Ninguém é capaz de saber o que seja o tique-taque de uma calça, mas Tizuca sabe, ele que descobriu o fenômeno: há calças com tique-taque, outras sem. A maioria, sem. Certo ruído leve que ela faz quando a gente anda? Não. Certo ritmo, certas dobras harmoniosas? Também não. Tizuca não explica a ninguém, nem a si mesmo. Só ele sabe, e esconde de todos.

A questão é que, sendo a calça sonhada, não é rigorosamente a calça sonhada. Entenda quem quiser ou puder. Verdade, verdade, as calças que sonhamos nunca se realizam em vitrine alguma do mundo, elas foram feitas e desfeitas no momento ideal, que os figurinistas seriam incapazes de assimilar. Bolso embutido na cintura não é o mesmo que bolso inclinado. Tem mais: a barra virada. Esqueceram-se de botar no real a barra virada do meu sonho.

Tizuca, não te resolves? Vais ficar parado a eternidade diante da loja, vestindo com os olhos? Se não és capaz de escolher entre uma calça pied-de-poule e outra pied-de-coq, como escolherás entre duas garotas? Ou duas profissões? Ou…?
Chega de perguntar, tu me engrilas. Tizuca desdobra-se em consciência e alienação. Pergunta-se e recusa-se a responder. Se houvesse nas coisas uma resposta, o rótulo esclarecedor: Sou o que queres. Não sou o que queres. Todas parecem dizer: Afinal, que queres?

A moda. O medo. Medo de não estar na moda. O descompasso. O desequilíbrio íntimo, independente do efeito que possa produzir nos outros o fato de não usarmos aquela camisa que é a absoluta nesta primavera. Por que me visto? Para vocês, mas principalmente para minha imagem no espelho. Nos dois espelhos: o do armário, o de dentro de mim mesmo, Tizuca, dezoito anos, indecisão. E depois…

Depois, Tizuca tem no bolso apenas duzentos cruzeiros, que não dão para comprar a vitrine, e levar para casa e experimentar todas as soluções vestiais e escolher aquela solução, aquele colarinho, aquele bolso, aquela prega. A vida é ondulada, interrogativa, como a minhoca. E muda, feito a moda.

Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"

Medo da eternidade

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.


Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
Clarice Lispector

terça-feira, janeiro 27

Queridinho de milhões

 


Os últimos dias de um livro

Depois dos sessenta anos, a coisa mais comum são as despedidas. Não só porque você passa a frequentar mais velórios que aniversários, mas porque passa a se despedir de partes de você (como alguns dentes, apêndice, amigdalas, vesícula, etc…).

O que eu não esperava era ter que despedir de meus livros.


Agora que sou editor de várias das minhas próprias obras (o quê? Você nunca ouviu falar na Padaria de Livros?), terei que praticar a eutanásia em algumas delas.

É que, quando o estoque de um livro colorido chega ali pelos duzentos exemplares, há que pedir uma nova impressão (livros em P&B podem ter edições digitais decentes, baratas e pequenas). Mas há obras que não serão reimpressas. Elas estão com os dias contados. Ou, no caso, com os exemplares contados.

São livros que vendem tão vagarosamente que uma nova edição só ocuparia espaço no depósito (leia-se: “minha sala”).

Quando for embora o último exemplar de um desses títulos, acabou. C’est fini. Babau.

O pior é que, às vezes, estes livros que recebem a pena de morte são bons. Por exemplo, O amor é animal! tem ilustrações lindas de Miki W., e o texto fala sobre os diversos tipos de amores entre os animais. Mas contar que há seres que não têm apenas um parceiro e que às vezes este parceiro não é do sexo oposto virou uma blasfêmia.

Esse livro jamais foi adotado por uma escola privada (nota de elogio e espanto: a Prefeitura de São Paulo comprou uns dois mil exemplares para as salas de leitura), porque os professores não vão querer comprar uma briga com pais reacionários. Se bem que a censura também vem dos lados pretensamente modernos. Tente, por exemplo, sugerir a leitura de um livro de Monteiro Lobato para você ver.

Na mesma situação de O amor é animal! está a história em quadrinhos Super-Zé. Eu gostaria de ter lido um livro desses na adolescência, com um herói meio torto, que percebe que superpoderes não são grande coisa e tenta fundar um partido político. Mas, pelo visto, as HQs que adaptam grandes romances brasileiros são as únicas que têm vez nas salas de aula.

Pois bem, depois de fazer a biópsia (ou bibliópsia) desses livros, decidi que eles não serão reimpressos. Seria perda de tempo, de dinheiro e de espaço na sala.

É triste perceber que a vida de um livro não é necessariamente mais longa por ele ser bom. Assim como uma pessoa não vive mais por ser boa.

A natureza e o mercado não ligam muito para meritocracia. Ou talvez até liguem, mas é uma meritocracia que privilegia a herança genética. E nos dois casos.

Enfim, espero que estes dois livros tenham últimos dias agradáveis e que caiam nas mãos de bons leitores. O certo é que, em breve, eles não estarão mais vivos nos catálogos. Serão acessíveis apenas nos sebos, uma espécie de centros espíritas para livros desencarnados. Ou, no caso, desencatalogados.

O sopro que falta

Num tempo em que até piada precisa de manual de instruções, bula e QR code de consentimento, nunca se precisou tanto dele: o cronista pré-patrulha. O sujeito de ironia ligeira, sarcasmo ao ponto e uma leve tendência a irritar autoridades e vacas sagradas.

Esse cronista, caro leitor, era um especialista em rir com classe de tudo aquilo que hoje exige live, clube de leitura e mediação. Fazia mofa da crise, do preço do tomate, do ministro de bigode, da censura e até de si mesmo, quando se via obrigado a escrever uma crônica no domingo, com ressaca e sem assunto. E conseguia. Fazia do nada uma sátira, da dor uma anedota e do ridículo fazia o Brasil.

Mas aí o tempo passou. Veio a internet, os emojis, o coaching motivacional, o bolovo gourmet. E, com eles, uma nova forma de vigilância: a do bom-mocismo performático, do “olha como eu sou consciente”, do “antes de criticar, você considerou o impacto socioafetivo dessa piada nos aracnofóbicos?”.

De repente, a irreverência virou suspeita. E o humor, esse velho transgressor, foi algemado com palavras como “inadequado”, “desrespeitoso” e “multiculturalmente insensível”. Não que tudo isso não tenha valor — tem, sim. Mas vamos ser sinceros: uma piada com todas essas credenciais não arranca risada, arranca o laudo de falecimento do senso de humor.

E é aí, meus caros, que o cronista pré-patrulha precisa ressurgir das cinzas. Não como um salvador (ele tem alergia a essa função), mas como um sujeito que sopra. Sim, sopra uma frase torta, um parágrafo venenoso, um comentário que gera aquele sorrisinho de lado. E pronto: incendeia o ambiente. Porque hoje, nesse mundo estanque, é preciso de sopradores para levantar a poeira.

A caretice atual é tão engomada, tão esforçada em parecer elevada, que qualquer risada fora de hora é revolucionária. O sujeito que ousa gargalhar sem planilha de impacto social é imediatamente fichado: subversivo, perigoso, potencialmente engraçado. E o mais curioso: mesmo quem finge indignação às vezes ri escondido, porque fazer isso de algo proibido tem o mesmo sabor daquela cola escolar cheirada na infância. Todo mundo nega, mas o brilho no olho entrega.

O cronista pré-patrulha, portanto, não influencia por nostalgia. Ele motiva por contraste. Porque lembrar o que é o riso sem freio também é um ato político. Talvez o mais urgente de todos. Ainda mais para o momento atual.

E sejamos francos: num mundo em que todo mundo anda com extintor na mão, quem sabe soprar acende a fogueira da mudança.

Manoel por Manoel

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do
ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade
do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não
pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem.
Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho
para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de
peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra
era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um
serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma
infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais
comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz
comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e
suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago
das minhas raízes crianceiras a visão comungante e
oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro
me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que
eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem
de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde
havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era
o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino
e o rio. Era o menino e as árvores.
Manoel de Barros, em "Meu quintal é maior do que o mundo"

Capítulo nada desnecessário para o viajante

Conclusão definitiva: será verdade que “o francês não tem bom senso”?

— Pois é, como é que o francês não terá bom senso? — interrogava-me ao observar os novos passageiros, quatro franceses que acabavam de entrar na nossa carruagem. Eram os primeiros franceses que eu encontrava na sua própria terra, se não contarmos os alfandegários em Arcelin, donde partíramos havia pouco. O pessoal aduaneiro tinha sido muito simpático, tinha despachado rapidamente o que era preciso despachar, e eu regressara à carruagem muito satisfeito com o meu primeiro passo em França. Antes de Arcelin, no nosso compartimento de oito lugares, só estávamos dois na altura, eu e um senhor suíço, homem simples e modesto, de meia-idade, um interlocutor amabilíssimo com quem conversei duas horas sem parar. Agora éramos seis e, para minha surpresa, com a entrada dos nossos novos companheiros de viagem, o suíço tornou-se de repente muito taciturno. Tentei continuar a conversa com ele, mas ele, visivelmente, apressou-se a dá-la por finda, respondendo-me com secura evasiva, quase com repulsa; virou-se para a janela e pôs-se a contemplar a paisagem; não tardou a pegar no seu guia alemão e a mergulhar nele. Deixei-o em paz e centrei a atenção nos meus novos companheiros de viagem. Era gente um pouco estranha. Sem bagagem, sem uma trouxa sequer, um pacote, sem estarem vestidos de maneira a que minimamente os identificássemos como viajantes. Nem pareciam viajantes. Todos envergavam sobrecasacas ligeiras, muito gastas, coçadas, pouco melhores do que as que usam entre nós os impedidos dos oficiais ou os servos domésticos dos proprietários rurais médios. Camisas sujas, gravatas de cores berrantes e também bastante sujas; um deles tinha no pescoço uns restos de lenço de seda, daqueles lenços que nunca se tiram e acabam por se impregnar de uma libra de gordura depois de quinze anos de contacto permanente com o pescoço do seu portador. O mesmo portador tinha ainda botões de punho com diamantes falsos do tamanho de avelãs. Por outro lado, tinham todos um certo chique, um ar donairoso. Pareciam os quatro da mesma idade, talvez dos seus trinta e cinco anos, e, embora de fisionomias muito diferentes, eram contudo muito parecidos: as caras gastas, as formais barbichas francesas, todas elas talhadas de maneira bastante semelhante. Via-se logo que era gente que passou por tudo e para todo o sempre adotou uma expressão azeda mas extremamente prática. Pareceu-me também que todos se conheciam, mas não tenho lembrança de que tenham trocado entre eles uma palavra sequer. Para mim e para o suíço não queriam olhar, e assobiavam com indiferença, acomodavam-se ao lugar com indiferença, olhavam pela janela da carruagem com a mesma indiferença persistente. Acendi um cigarro e, por não ter mais nada que fazer, comecei a observá-los. Veio-me à cabeça a pergunta: afinal, que gente é esta? Trabalhadores não eram, bourgeois também não. Seriam militares na reserva, uns quaisquer demi-solde ou coisa do gênero? Aliás, não me preocupava muito com eles. Uns dez minutos depois, chegados à estação seguinte, todos os quatro, um após outro, saltaram do comboio, a porta fechou-se e arrancamos. Neste percurso, o comboio não demora quase nada nas estações: dois ou três minutos e logo se põe a andar, e bem, velozmente.

Mal ficamos sozinhos, o suíço fechou o seu guia, pô-lo de lado e olhou para mim com satisfação e evidente desejo de continuar a conversa.

— Aqueles senhores não fizeram uma viagem lá muito grande — comecei, olhando para ele com curiosidade.

— Porque já estava previsto fazerem só de estação a estação.

— Conhece-os?

— Conheço-os?... Mas são polícias...

— Como? Que gênero de polícias? — perguntei, espantado.

— Pois é... eu vi logo que o senhor não ia desconfiar.

— Acha... que são espiões? (Custava-me ainda a acreditar.)

— São, e estiveram aqui por causa de nós.

— Tem a certeza?

— Oh, absoluta! Já passei por aqui várias vezes. Indicaram-nos a eles logo na alfândega, quando viam os nossos passaportes, comunicaram-lhes os nossos nomes, etc. A seguir, eles entraram no comboio para nos seguirem.

— Mas para que precisavam eles de nos seguir se já nos tinham visto? O senhor não acaba de dizer que lhes deram os nossos dados na estação anterior?

— Deram, e os nossos nomes. Mas não era suficiente. Agora, puderam observar-nos em pormenor: a cara, a roupa, o saco de viagem, enfim, todos os pormenores do nosso aspeto. Repararam de certeza nos seus botões de punho. O senhor sacou da cigarreira, então pode ter a certeza de que notaram também a cigarreira, com todas as minúcias, sabe como é, com o máximo de particularidades, todas as particularidades. É que o senhor, em Paris, poderia desaparecer, mudar de nome (isto é, se fosse suspeito). Pois bem, todos esses pormenores podem ser úteis à instrução. Tudo isso, desde os primeiros dados logo naquela estação, são comunicados por telégrafo para Paris. E, em Paris, é tudo guardado nos arquivos para o que der e vier. Além disso, todos os hoteleiros têm de comunicar à polícia todos os dados sobre os hóspedes estrangeiros, também em pormenor.

— Mas tantos porquê, logo quatro? — perguntei, ainda um pouco perplexo.

— Oh, eles têm-nos cá em grandíssimo número. Pelos vistos, desta vez há poucos estrangeiros, se houvesse mais eles distribuíam-se pelas carruagens.

— Mas, por amor de Deus, eles nem sequer olharam para nós. Estavam sempre a olhar para a janela.

— Não se preocupe, viram tudo... Foi por causa de nós que eles entraram.

Ora, ora — pensei —, e ainda dizem que “o francês não tem bom senso” — e (confesso-o com vergonha) olhei com desconfiança para o suíço: “E tu, meu amigo, não serás da mesma comandita? Não estarás agora a fazer teatro?” — passou-me pela cabeça, mas só por um instante, acreditai. É absurdo, mas nada a fazer: estão sempre a passar-nos pela cabeça, involuntariamente, certas coisas...

O suíço não estava a enganar-me. No hotel onde me hospedei registaram de imediato todos os meus dados, até aos mínimos sinais particulares, e comunicaram-nos para quem de direito. Pela prontidão e minúcia com que nos observam para a descrição dos sinais particulares pode concluir-se que também toda a nossa vida posterior no hotel, todos os nossos passos, por assim dizer, serão registados escrupulosamente. No entanto, desta minha primeira vez, a mim, pessoalmente, não incomodaram muito e fizeram o meu registo discretamente, não deixando porém de me fazer as perguntas habituais que constam do livro de hóspedes: quem é, como é, donde vem, com que fim, etc. No segundo hotel em que tive de me hospedar por já não ter encontrado vaga no meu anterior Hôtel Coquillière, após a minha ausência de oito dias por ter ido a Londres, trataram-me com mais franqueza. Este segundo hotel, o Hôtel des Empéreurs, tinha um aspeto mais patriarcal, em todos os sentidos. O dono e a dona eram de facto pessoas muito boas e extremamente delicadas; tratava-se de um casal já idoso, incrivelmente atento aos seus hóspedes. No próprio dia da minha instalação no hotel, à noite, a hoteleira apanhou-me no átrio e pediu-me para ir ao escritório. O marido também lá estava, mas a mulher, pelos vistos, era quem punha e dispunha no negócio.

— Desculpe — começou ela, muito educada —, precisamos dos seus sinais particulares.

— Mas já os dei... têm o meu passaporte.

— Sim, mas... votre état?

Este “votre état” é uma coisa bastante confusa e nunca me agradou. O que poderia escrever? Viajante? — é demasiado abstrato. Homme de lettres? — não me teriam qualquer respeito.

— Vamos escrever “propriétaire”, o que acha? — propôs a hoteleira. — Será melhor.

— Oh, sim, será o melhor — apoiou o marido.

— Está escrito. Agora: qual o objetivo da sua vinda a Paris?

— Como viajante, de passagem.

— Humm, pois, pour voir Paris. Desculpe, monsieur, a sua estatura?

— Estatura como?

— Que altura tem?

— É como vê, média.

— Com certeza que é média, monsieur... Mas é desejável saber-se com mais precisão... Acho, acho... — continuava ela, duvidando e aconselhando-se, com os olhos, com o marido.

— Acho que tantos centímetros — decidiu o marido, determinando a olho a minha altura.

— Mas para que precisam disso? — perguntei.

— Oh, é ne-ces-sário — respondeu a hoteleira, esticando amavelmente a palavra “necessário” e apontando a minha altura no livro. — Agora, monsieur, cabelo? Loiro, humm... bastante claro... liso...

Apontou também as características do meu cabelo.

— Se me permite, monsieur — continuou, largando a pena, levantando-se da cadeira e aproximando-se de mim com um ar muito amável —, ponha-se aqui, dê só dois passos, mais perto da janela. Tenho de ver a cor dos seus olhos. Humm, claros...

E de novo, com o olhar, pediu o conselho do marido. Pelos vistos, amavam-se muito.

— Mais para o acinzentado — observou o marido. — Voilà. — Piscou o olho à mulher, apontando para qualquer coisa acima do seu sobrolho, mas percebi muito bem o que ele tinha em mente: é que tenho uma pequena cicatriz na testa, e o homem queria que a mulher apontasse também este meu sinal particular.

— Permita-me agora uma pergunta — disse eu à hoteleira quando o exame acabou —, será que vos exigem toda essa informação?

— Oh, monsieur, é mesmo ne-ces-sária!...

— Monsieur! — apoiou-a o marido com um ar muitíssimo grave.

— Mas no Hôtel Coquillière não me interrogaram sequer.

— Não pode ser — disse a hoteleira com vivacidade. — Eles podem ser responsabilizados por isso. Ou então observaram-no sem dizerem nada, mas de certeza que observaram. Ora, nós aqui somos mais simples e sinceros com os nossos hóspedes, acolhemo-los aqui como em família. O senhor vai ficar satisfeito conosco. Vai ver...

— Oh, monsieur!... — confirmou o marido solenemente, e até se lhe pintou uma certa ternura na cara.

Sim, era um casal honestíssimo e amabilíssimo, pelo menos nas minhas relações ulteriores com eles. Mas a palavra “ne-ces-sá-rio” não era dita em tom de desculpa ou de carinho, mas no sentido literal de necessidade e quase em conformidade com as suas convicções.

Estou, pois, em Paris…
Fiódor Dostoiévski, "A Submissa e Outras Histórias"

Livros, para que te quero?

Vejo uma postagem em rede social do jornalista e compositor Nelson Motta, em que ele diz ter tomado decisão importante: desapegar geral. Contou que tinha em casa um quarto inteiro com livros e discos, que iam do chão ao teto. Doou tudo. Estou segurando o meu queixo desde que li.

Ele disse exatamente isso: doei todos. “Fiquei me perguntando por que guardar tudo aquilo? Então resolvi doar todos”. Repassou, segundo afirmou, livros e discos a um cara que fazia arrecadações para dar acesso a pessoas que jamais teriam como comprá-los.

Somente uma coleção sobre Música Popular Brasileira, reunindo cerca de 700 obras, não foi dada a essa mesma pessoa. Mas, sim, ao Museu da Imagem e do Som. Não Conheço Nelson Motta, apenas de nome, mas não tenho adjetivo para lhe atribuir a não ser o de nobreza de alma. Foi sim um gesto generoso, bonito, exemplar.

Eu, por exemplo, não sou uma pessoa com essa grandeza, embora tente praticar o desapego. Entendo que o nosso burrico só deve carregar, sob o sol, os tesouros imprescindíveis. Entre eles estão os meus livros. Logo, o meu desapego tem limites: favor não tocar nos meus livros. Não vendo, não empresto, não doo.

Doar todos os meus livros que tenho nas estantes, para mim, seria uma morte simbólica. Os livros que li e guardo são minha intimidade. Foram eles, lidos cada um a seu tempo, que fizeram de mim esta pessoa levemente alegre, levemente melancólica, crítica, e um tanto cínica. Os livros que eu li são a minha história.

Claro, sei que parados numa estante os livros não têm serventia alguma. Eles poderiam e podem contribuir para o crescimento de muita gente. Mas, eu não sou um sujeito evoluído espiritualmente a ponto de doá-los.

Comecei falando de Nelson Motta porque ele é conhecido, mas sou amigo de um casal, Nara Lúcia (Narinha) e Camilo Brollo, que aos poucos vêm se desfazendo de seus livros. Já doaram grande parte do que tinham. Narinha e Camilo estão relendo o que têm em casa e, ao final, repassam para os amigos. Eu e as jornalistas Cleide Alves e Cláudia Parente somos herdeiros de verdadeiras preciosidades literárias.

São livros que estão fora de catálogo, coisas raras, romances, contos e ensaios escritos nas décadas de 1960, 1970. Lendo esses, você conclui que a grande maioria das coisas escritas hoje não têm novidade alguma. Os “originais” são melhores.

Recebo os livros de Nara e Camilo e me pergunto: algum dia vou atingir esse estágio de plenitude? Ai de mim. Acho que terei que voltar pelo menos mais duas encarnações para ascender a essa dimensão de ser a pessoa que doa os próprios livros.

Dizem que o desapego é um processo de libertação, é um entendimento de que tudo o que possuímos é fruto de ilusões. Como eu ia dizendo, até tenho doado várias coisas minhas e aceitado muitas perdas sem mágoas. Mas, em se tratando de livros, sou mesquinho.

Livros parados são meros objetos. Mas, até aqui, para mim, doá-los seria como eu mesmo partisse antes de mim mesmo.
Cícero Belmar

segunda-feira, janeiro 26

Mergulhe!

 


Incompletude

Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe.
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho:
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios — e
1 esticador de horizontes.
Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
fios de teias de aranha. A coisa fica bem
esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
incompletude?)
Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"

Estante-altar

Conforme os anos passavam ela ia aperfeiçoando algumas técnicas. Melhorou o traço do delineador, a pronúncia de “Côte d’Azur”, o sabor do refogado e, sobretudo, a organização dos livros.

Não era boa para organizar quase nada: nem agenda, nem armário, nem pensamentos, nem bolsas. Mas quando o assunto era a separação criteriosa de livros, poucos poderiam superá-la.

Aos 14 anos, já separava crônicas numa prateleira, romances em outra e poesia numa terceira. Aos 18, inaugurou a estante dos jurídicos. Aos 21, reparou que aquilo não era suficiente. Separou contos de crônicas, romance histórico de ficção, nacionais de estrangeiros. Aos 24, viu sua estante invadida por filosofia e história e decidiu livrar novas prateleiras para tanto. No ano seguinte, quis que os livros de bolso ficassem separados, porque aquela oscilação de alturas não era tolerável.

Foi aos 28 que ela decidiu que deveria haver uma estante-altar. Um lugar de honra, um posto soberano de adoração para seus brâmanes literários. A estante-altar precisava ser pequena para exigir algum martírio na seleção. Uma espécie necessária de autoflagelo.

Decidiu que as quatro prateleiras da estante-altar seriam ocupadas, de baixo para cima, por biografias, arte, romance e poesia. Começou a refletir, angustiada. Já pensava nos seus irrenunciáveis A dama das camélias, Do amor e outros demônios, Sentimento do mundo, O estrangeiro, O apocalipse dos trabalhadores. Pensou na terrível hipótese de Contos do nascer da Terra e Sagarana não se encaixarem em nenhum dos estilos escolhidos. Via Vinicius, Alberto Caeiro e Manoel de Barros acenarem afetuosamente para ela.

Lembrou-se das biografias de Kiki de Montparnasse e Elza Soares. Não tinha muita clareza sobre o que sentia. Se gostava tanto assim dos livros ou só das personagens. Pensou no imenso livro de fotografias da vida de Frida Kahlo, na coletânea de pinturas e esculturas de Botero, nas obras de Vermeer, de Dalí e de Tarsila do Amaral e nas fotografias de Man Ray. Não estava disposta a renunciar a absolutamente nenhum.

Estava nervosa com a estante, com a escolha e com a imensa responsabilidade que carregava nas costas desde então. Sabia que aquele era um projeto de renúncias (duras renúncias que teriam que ficar nas prateleiras de sempre em vez de usufruir da sonhada promoção). Refletiu durante algumas semanas e concluiu que precisava de tempo. A estante-altar permaneceria vazia por alguns meses.

Passada uma semana, a estante-altar serviu de apoio temporário para umas revistas velhas que deveriam ir para a sala de espera do consultório de sua tia. Poucos dias depois, colocou ali um saquinho de pano com o par de sapatos que precisava devolver para a prima. O rádio que precisava levar à assistência técnica. Uns papéis do banco que não tinha certeza se já podia jogar fora.

A estante-altar foi rebaixada a depósito de bens sem-teto. Os livros permaneceram seguros nas prateleiras antigas. Ela nunca deixou de pensar no assunto, embora até hoje ainda lhe falte coragem para tomar alguma atitude a esse respeito.
Ruth Manus, "Um dia ainda vamos rir de tudo isso"

O convidado agradece

Há dias, em certo jantar naquela cobertura da Zona Sul, um convidado pediu a palavra, e tal foi a surpresa que ninguém se mexeu para recusá-la. É de lembrar que há muito na Zona Sul desapareceu o hábito de usar da palavra à maneira clássica: um falando e os demais reduzidos ao silêncio, ouvindo. Há talvez meio século que se instituiu a conversa generalizada, isto é, todos falando ao mesmo tempo, com a voz ou com o garfo, pois comer é também maneira eficiente de comunicar-se: o apetite chama o apetite, e os apetites porfiam no diálogo manducativo. Esta segunda técnica de comunicação é, mesmo, a preferida.

Não se lhe tendo recusado a palavra, ela também não lhe foi concedida, pois o espanto dominava as fisionomias e os talheres. À falta de sim ou não, peremptório, o homem tomou a palavra resolutamente, e disse que ia agradecer.

Agradecer o quê? perguntou a si mesmo. E a si mesmo respondeu, como o saudoso ministro Ataulfo de Paiva: tudo. E prosseguiu:

— Tudo é para agradecer, a começar pelo fato de estarmos aqui reunidos, degustando o excelentíssimo arroz com castanha-de-caju, digno da mesa dos deuses, como outro igual ainda não comi, e creio que todos os presentes jurarão o mesmo. Gozar da amizade de Baby e Lulu Fontamaro é uma felicidade para o coração e para o paladar.

Mas, se estamos aqui reunidos, papando o bom arroz do casal, obviamente é porque emplacamos mais este setenta e um, e se emplacamos, é forçoso agradecer o emplacamento. Já imaginaram se todos nós houvéssemos tomado a barca de Caronte antes desta noite amena sob as estrelas, pois até estrelas Lulu e Baby providenciaram neste dezembro de chuva? Que desolação reinaria nesta casa, que abandono, que gélidas imagens de finitude — mas nem quero insistir, rendo graças à vida e à sua conservação, à maravilhosa circunstância de termos vencido todos os elementos que conspiravam contra a nossa permanência em nossos respectivos domicílios, gabinetes, escritórios, empregos e mesmo desempregos, pois há quem viva disto, e viva bem.

Agradecer à vida é agradecer inclusive os seus males, porque nos pouparam ou só de leve nos atingiram com sua farpa. Nossas gripes não se entenebreceram em pneumonias duplas; nossos embaraços gástricos e/ou financeiros não nos derrubaram. Passo os olhos em torno desta mesa florida (que soberbo arranjo de flores você conseguiu com sua criatividade, Baby!) e não vejo nenhum aleijado. Se alguém aqui usa perna mecânica, eu o felicito, pois absolutamente não se percebe, e noto nos convivas uma aérea leveza de Nureyev. Graças! graças sejam dadas à vida, em sua plenitude às vezes contraditória, mas, no fundo, dialética, perfazendo a síntese expressa nesta gratíssima reunião!

Agradeço ao charuto do nosso amigo Nivaldo, que, ao acendê-lo antes de terminado o jantar, e soprando baforadas junto às faces pulcras de Jeanete Taborda, nem por isto eleva o índice de poluição ambiente na Guanabara, pois como este índice já chegou ao máximo, pretensão inútil seria tentar aumentá-lo. Eis uma demonstração objetiva que devemos ao Nivaldo (obrigado, companheiro), ao mesmo tempo em que cabe agradecimento especial ao referido índice de poluição, de vez que ele comprovou a fortaleza de nossos organismos, resistentes a tudo. Enfrentaremos sorridentes os futuros flagelos sociais que se desencadearem sobre nossas cabeças, uma vez que o homem provou ser sempre superior a qualquer flagelo na história, sem embargo das baixas sofridas na sempiterna peleja.

Agradeço à língua portuguesa por me haver obsequiado com esta palavra sempiterna, que suponho pronunciada pela primeira vez na Zona Sul, onde se diz que tudo é passageiro, as situações não duram mais que uma estação de praia ou um drink no Country, e amanhã já é ontem. Agradeço às guerras não declaradas, ou declaradíssimas, no Vietnã, no Camboja, no Oriente Médio, no Paquistão Oriental, por absurdo que pareça meu ponto de vista: elas estimulam o estudo da geografia através de notações concretas, dão matéria a correspondentes, fotógrafos e comentaristas internacionais, e assegurando a continuidade dos debates acadêmicos na ONU, garantem trabalho infindável às delegações. Eu quisera estar lá (na ONU, não na guerra) em pessoa, mas, como nem sempre as aspirações elevadas são factíveis, dar-me-ei por satisfeito (e agradecerei) se o governo se lembrar de meu filho Joanito para assessor de qualquer coisa naquela Assembleia. Ele é habilitado.

Em suma, agradeço. De coração. A tudo. Seria impossível minudenciar as gratidões, pois chegamos à sobremesa, e quero agradecer desde logo esta espetacular musse de manga gelada, nunca outra igual saboreamos antes, ou não é de manga? ah, é de pêssego, pois eu afirmo do mesmo modo que…

Aí faltou luz, e o homem acrescentou:

— Agradeço à Light: ela não falha nunca nestas horas.

Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"

Brincar de pensar

A arte de pensar sem riscos. Não fossem os caminhos de emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir. Não se convidam amigos para o jogo por causa da cerimônia que se tem em pensar. O melhor modo é convidar apenas para uma visita, e, como quem não quer nada, pensa-se junto, no disfarçado das palavras.


Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem ouve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.

Bom, mas, quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo.

Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.

Uma vez por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de… E foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar em caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.

Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?

Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.
Clarice Lispector, "A descoberta do mundo"

domingo, janeiro 25

Igualdade ao menos na leitura

 


Epílogo

Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada aguenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade.
Mario Quintana, "Sapato Florido"

De que são feitos os dias?

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...
Cecília Meireles

Fábula

Num fabulário ainda por encontrar será um dia lida esta fábula:

A uma bordadora dum país longínquo foi encomendado pela sua rainha que bordasse, sobre seda ou cetim, entre folhas, uma rosa branca. A bordadora, como era muito jovem, foi procurar por toda a parte aquela rosa branca perfeitíssima, em cuja semelhança bordasse a sua. Mas sucedia que umas rosas eram menos belas do que lhe convinha, e que outras não eram brancas como deviam ser.

Gastou dias sobre dias, chorosas horas, buscando a rosa que imitasse com seda, e, como nos países longínquos nunca deixa de haver pena de morte, ela sabia bem que, pelas leis dos contos como este, não podiam deixar de a matar se ela não bordasse a rosa branca.

Por fim, não tendo melhor remédio, bordou de memória a rosa que lhe haviam exigido. Depois de a bordar foi compará-la com as rosas brancas que existem realmente nas roseiras. Sucedeu que todas as rosas brancas se pareciam exactamente com a rosa que ela bordara, que cada uma delas era exactamente aquela.

Ela levou o trabalho ao palácio e é de supor que casasse com o príncipe.

No fabulário, onde vem, esta fábula não traz moralidade. Mesmo porque, na idade de ouro, as fábulas não tinham moralidade nenhuma.
Fernando Pessoa, "Ficção e Teatro"